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Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos de Evandro Affonso Ferreira

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Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos de Evandro Affonso Ferreira

Os Piores Dias de Minha Vida

Os piores dias de minha vida…
Por Marisa Lajolo, curadora do Prêmio Jabuti
https://www.facebook.com/marisa.lajolo
Em 06/03/2015

Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos
3º Lugar na categoria Romance em 2015
Autor: Evandro Affonso Ferreira
Editora: Editora Record

“Os piores dias de minha vida… ”

Conversando com um grupo de jovens sobre o livro “ Os piores dias de minha vida foram todos” ( Evandro Affonso Ferreira, Ed. Record, 2014) uma garota surpreendeu os colegas ao dizer que “quando ouviu ( e depois leu)  o título do livro, achou que era a história de alguém que era feliz, porque os piores dias da vida já tinham passado …”.

Como se sabe  (e eu acredito), leitor tem sempre razão. mesmo quando vai na contra mão de outros leitores ! Esse era exatamente o caso, já que os colegas achavam que um livro com esse título, seria um nunca acabar de tristezas e infelicidades.

E aí ?

Aí, meus botões ficaram pensativos …  Voltei ao livro.

Na capa, belíssimo trabalho de Frede Tizzot, artista paranaense, que trabalha um rosto grego , a partir de um quadro que representa Antígona ( suponho –suposição em débito com  dona Internet … – quadro de Frederic Leighton ). No trabalho de Tizzot, o rosto da personagem da tragédia grega é recortado por linhas verticais, que dão ao leitor a impressão de uma imagem fatiada. Linda capa !

Linda e, acho, bastante articulada à história que Evandro conta pela voz de uma mulher.

Doente terminal, à espera da morte, sozinha num quarto, a narradora anônima faz de Antígona sua interlocutora. Antígona, personagem do teatrólogo grego Sófocles, é uma figura trágica, que paga com a vida a fidelidade a seus valores. E o que teria a narradora do livro de Evandro a dizer a Antígona?

Num fluxo ininterrupto de fala, sucedem-se reflexões sobre sua morte próxima  “ … caminho lentamente para o ocaso, submergindo-me nas areias movediças do desespero do desencanto “   e  episódios de sua vida, desordenadamente evocados : “ Três africanos aqui na frente estão falando possivelmente em quicongo, ou lugbara, não sei. Cena felliniana: ator amador vestido a caráter dublando Maria Callas “

Em parágrafos longos, o monólogo da narradora arrasta o leitor para o cotidiano de um doente que sabe que vai morrer em breve. Sabe da morte próxima, mas também sabe que a angústia da morte talvez se alivie pela imaginação. Alívio que não impede, no entanto, que a certeza da morte se expresse por metáforas fortes e brutas:   “(…) a morte se torna mais íntima – são perceptíveis suas unhas pontiagudas por todas as frestas. Jeito é me render aos surtos de fantasia”.

A fala da narradora – que o leitor escuta e o vai envolvendo, mesmo que aparentemente não seja dirigida a ele, mas sim a Antígona – a identifica como uma mulher de vida intelectual intensa, intimidade com grandes nomes e eventos da arte. Ao longo de sua sofisticada narração, a intimidade com a arte convive com ( e serve para expressar) a sensação de que, na hora da morte, ela se sente/ sabe “ refém de entidades demoníacas, dogmáticas, obstinadamente coerentes na prática de assanhar desgraças, objetivas em seus empreendimentos nefastos, suas maldades peremptórias”

Tais entidades, evocadas reiteradamente na história, em sua perversidade extrema, criam um curioso efeito de sentido ao se avizinharem – na narrativa do livro- de figuras do dia-a-dia paulistano.

De um lado, Antígona, Tântalo, as Parcas e as Erínias são evocações que podem deixar perdidos alguns leitores. Eu, por exemplo, às vezes.  De outro lado, mendigos maltrapilhos, executivos engravatados, gente revirando lixeiras, faixas que anunciam as treze preces poderosas trazem o leitor de volta à são Paulo da  “ rua São Bento , do Cemitério da Consolação, da Avenida Paulista, e do Viaduto do Chá.”

Ao repassar, como numa série de clips desconexos, episódios de sua vida ( memória fatiada como o rosto de Antígona da capa ?), um escritor, amigo já falecido, é figura constante. Esta presença traz para o livro de Evandro uma das marcas mais constantes da literatura brasileira mais contemporânea: o mundo das letras, o mundo dos livros, o mundo da literatura. Este mundo se expressa por um escritor que “munido de anseio inesgotável pela hipnose auditiva do texto, mais que de interesse pela recriação profunda e realista das psicologias, acreditava no poder sugestivo dos sons. Fazia jus ao significado da palavra texto: sabia tecer palavras”.

Esta personagem pode monitorar um pouco a leitura dos leitores de Evandro; na sucessão de páginas, encontramos ao longo do livro, passagens em que a história se faz música e som, como a que conta que deuses da debacle são sorrateiros chegam à sorrelfa “.

Sibilantes maravilhosas, dizem meus botões…

Mas as lições deste escritor-personagem prosseguem avaliando a própria obra, ele comenta com a narradora que as “personagens dos meus livros de modo geral têm final feliz: eles morrem.

É por aqui que retorno àquela jovem leitora, que – a partir do título do livro- desenvolveu expectativas de uma história de final feliz.

A abertura do livro já evoca Antígona: “Venha, luminosa Antígona, seja minha carpideira: também estou sendo enterrada viva“, pede a narradora.  O pedido combina bem com a epígrafe do livro, do Padre Vieira: “Saber morrer é a maior façanha”. Morte e enterros, no início da história, dão razão ao escritor amigo da narradora, que  “nunca procurou conquistar o favor dos leitores”

Será mesmo? Ou sua técnica de conquista é outra? Quem sabe ele aposta na sedução do tema da morte, interdito, sobretudo quando materializado em cenas, sensações e emoções como as que percorrem este romance de Evandro Affonso Ferreira…?

Que opinem os leitores que, como se disse lá em cima, têm sempre razão…

Sobre o autor:

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