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Olhos d´água de Conceição Evaristo

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Olhos d´água de Conceição Evaristo

Olhos d´Agua

Olhos d´água
Por Marisa Lajolo, curadora do Prêmio Jabuti
https://www.facebook.com/marisa.lajolo
Em 29/05/2016

Olhos d´água
3º Lugar na categoria Contos e Crônicas
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas Editora

“Olhos d’água” é o livro de contos de Conceição Evaristo ( ed. Pallas/ Biblioteca Nacional ), que ganhou um prêmio Jabuti ( contos) no ano passado . É também o título da primeira historia, historia de uma mulher às voltas com a imagem que guarda de sua mãe. Mas …  olhos d’ água é também como as vezes ficam os olhos dos leitores das quinze 15 belíssimas historias que a escritora mineira, reúne neste livro.

Leitores ganham olhos d’água e alma leve pela beleza das historias que – apesar do que narram – tecem a esperança

Personagens principais quase sempre femininas. Velhas, moças, crianças. Negras, quase todas e quase todos. Ex-prostitutas, domésticas, pedreiros, traficantes. E outros e outras.  Pobres todas e todos.

A perspectiva em que as historias são narradas faz toda a diferença no coração e na cabeça dos leitores, irremediavelmente envolvidos pelo que leem . Em cada conto, o enredo começa como que de repente: constrói-se aos poucos, descolando-se de pequenas nadas, de gestos cotidianos, de sensações imprecisas. “Coisas nenhumas” que nas mãos da escritora e na voz da narradora fazem toda a diferença. E o leitor não larga a leitura, embora as vezes possa alongar o olhar do livro, para suas próprias lembranças .

Mas com certeza volta ao livro.

Por mais que dor e sofrimento pontuem as historias, há também em todas elas a chama de uma vontade forte, de uma consciência que desperta, do aprendizado dos extremos da vida e da morte. Raiva. Muita. Lições que se aprendem – leitores e personagens – às vezes no choro do bebê recém nascido, outras vezes na visão do cadáver que o camburão recolhe numa manhã carioca.

Para registrar historias como as dos homens e mulheres que povoam seu belo e premiado livro, Conceição Evaristo compõe uma voz narradora forte e envolvente. Ainda que desataviada. Direta.  Às vezes enriquecida por um ou outro vocábulo africano (creio), alguns Ys e Ks, ao lado dos nomes de muitas personagens conferem ao livro a marca da mestiçagem de nossa cultura.

A solidariedade da voz narradora com o que narra  expressa-se tanto na atenção aos detalhes do cotidiano como na absoluta recusa ao sentimentalismo. A mais absoluta recusa que se possa imaginar…  O leitor que se envolva. E como se envolve ! Na raiva e na esperança. Esta sábia opção de Conceição Evaristo  por uma dicção narrativa enxuta, confere extraordinária  beleza ao livro e constrói sua identidade. Em várias das histórias  imaginação e fantasia temperam um cotidiano de carências e ausências. Nuvens, algodão doce, uma festa de aniversário.

É a vida e a esperança que nascem, esgueirando-se – na voz que narra a história –   entre tiroteios onde não faltam balas perdidas e mortes acidentais. Raiva.  Pois, como sabe Natalina, são “frágeis os limites entre a vida e a morte”. E são mesmo, não é? Mas também – como se aprende com a neta Querença, há que não esquecer os sonhos.

A menina , que encerra a história ” haveria de sempre umedecer seus sonhos para que eles florescessem e se cumprissem vivos e reais . Era preciso reinventar a vida”  .

Aqui e agora.

E não será esta reinvenção da vida que este belo livro de Conceição Evaristo engendra e deixa nos leitores vontade de juntar-se a ela na tarefa ?

Acho que sim.

Sobre o autor:

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