Entre em contato: (11) 3458-0506
Tema multi propósito para WordPress!

Caderno de um Ausente

mai
31

Caderno de um Ausente

CADERNO DE UM AUSENTE[1]

Caderno de um ausente ( João Anzanello Carrascoza, Cosac Naif, 2014) é um livro primoroso.  Dando nova estrutura à antiga formatação do  romance epistolar, o volume pequeno e discreto enreda o leitor como, na Europa do século XVIII, Richardson e Laclos arrebataram leitores. Um ( o inglês) com as maltraçadas de Pamella e outro ( o francês)  com as do Visconde de Valmont e de outras figuras da aristocracia francesa.

Mas Carrascoza inova.

Muito e bem.

As pouco mais de curtas cem páginas de  seu livro podem ser lidas como uma única carta de um pai para sua filha recém nascida Bia. Carta escrita aos pedaços, que cobre pouco mais de um ano de vida da menina e entrelaça, magistralmente, presente e passado. Do pai e da filha.

E em alguns momentos se debruça sobre o futuro.

Remetente da carta, o pai é o narrador do livro.

É pela sua voz – por vezes embargada de emoção, outras vezes travada pelo cotidiano da vida de um professor universitário – que o leitor vai mergulhando na intimidade da experiência de uma família, de um segundo casamento, de um filho do primeiro, de uma sogra que é avó amorosa, de uma gravidez de risco. Sempre no limite do mínimo, do discreto, do fragmentário. Sempre imergindo em profunda emoção.  Que, claro, contagia o leitor.

À medida que progride na leitura, o leitor vai criando e alterando as expectativas do sentido da ausência anunciada no título. Quem é o ausente ?

Mas a capa tem mais segredos. Logo depois dela, na primeira linha do romance, a presença de um vocativo – Filha, acabas de nascer –sugere uma carta. A invocação da destinatária, Beatriz, Bia, em segunda pessoa, perpassa todo o texto. No entanto, o título do livro, na capa, promete ao leitor um caderno: Caderno de um ausente .

Cabe ao leitor decidir. E qualquer que seja sua decisão, ele (leitor) –mais do que testemunha- compartilha, na leitura, a exposição de um eu, uma primeira pessoa no masculino. A narração em primeira pessoa, independente de ser voz masculina ou feminina, torna quase irresistível a identificação de quem lê com quem escreve. Claro que não com a pessoa física do escritor, o João Anzanello Carrascoza, mas com a pessoa fictícia do narrador, a quem o escritor confere a palavra.

Complicado?

Acho que não… o recurso é antigo e com certeza o leitor já viajou por muitos outro livros nos quais os eus não são eus e sim  eles ,

Mas este Caderno de um ausente tem mais encantos. Ao longo da leitura, o leitor vai encontrando textos apagados, cujo apagamento deixa manchas brancas nas linhas do texto. Leitores mais velhos podem lembrar-se dos tempos da datilografia, quando se apagava com pincel e  um corretor branco os enganos e trechos a serem descartados. Se para tais leitores, esta ocorrência pode conferir à história ( e ao livro) um certo sentido de artesanato, numa obra impressa o procedimento ganha outros sentidos.

Quais ?

Vai saber … cada leitor é um leitor !

Talvez o apagamento de textos ao longo do livro possa articular-se com a ausência anunciada no título e mencionada e sugerida em diversas passagens da história. O leitor então sorri e dá-se conta de que o apagamento começa antes mesmo do início da narração. Na realidade, já começa na capa do livro. Invade logo depois a página da dedicatória e das epígrafes, pontilha o livro inteiro e se distende, alargado, nas páginas finais.

Ah … então pode ser isso …

Ou seja: um leitor mais afoito pode imaginar que está vendo no projeto gráfico do livro, o que  está lendo na história. E redobra o deslumbramento : tem em mãos um belíssimo livro, extremamente sofisticado, que honra o prêmio Jabuti com que foi contemplado.

Leitura imperdível !

 

Marisa Lajolo


[1] DISPONIBILIZADO EM 14.02.2016 NO FACEBOOK DE MARISA LAJOLO https://www.facebook.com/marisa.lajolo

Sobre o autor:

Desculpe-nos, mas os comentários não são permitidos no momento.