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Caderno de um Ausente


CADERNO DE UM AUSENTE[1]

Caderno de um ausente ( João Anzanello Carrascoza, Cosac Naif, 2014) é um livro primoroso.  Dando nova estrutura à antiga formatação do  romance epistolar, o volume pequeno e discreto enreda o leitor como, na Europa do século XVIII, Richardson e Laclos arrebataram leitores. Um ( o inglês) com as maltraçadas de Pamella e outro ( o francês)  com as do Visconde de Valmont e de outras figuras da aristocracia francesa.

Mas Carrascoza inova.

Muito e bem.

As pouco mais de curtas cem páginas de  seu livro podem ser lidas como uma única carta de um pai para sua filha recém nascida Bia. Carta escrita aos pedaços, que cobre pouco mais de um ano de vida da menina e entrelaça, magistralmente, presente e passado. Do pai e da filha.

E em alguns momentos se debruça sobre o futuro.

Remetente da carta, o pai é o narrador do livro.

É pela sua voz – por vezes embargada de emoção, outras vezes travada pelo cotidiano da vida de um professor universitário – que o leitor vai mergulhando na intimidade da experiência de uma família, de um segundo casamento, de um filho do primeiro, de uma sogra que é avó amorosa, de uma gravidez de risco. Sempre no limite do mínimo, do discreto, do fragmentário. Sempre imergindo em profunda emoção.  Que, claro, contagia o leitor.

À medida que progride na leitura, o leitor vai criando e alterando as expectativas do sentido da ausência anunciada no título. Quem é o ausente ?

Mas a capa tem mais segredos. Logo depois dela, na primeira linha do romance, a presença de um vocativo – Filha, acabas de nascer –sugere uma carta. A invocação da destinatária, Beatriz, Bia, em segunda pessoa, perpassa todo o texto. No entanto, o título do livro, na capa, promete ao leitor um caderno: Caderno de um ausente .

Cabe ao leitor decidir. E qualquer que seja sua decisão, ele (leitor) –mais do que testemunha- compartilha, na leitura, a exposição de um eu, uma primeira pessoa no masculino. A narração em primeira pessoa, independente de ser voz masculina ou feminina, torna quase irresistível a identificação de quem lê com quem escreve. Claro que não com a pessoa física do escritor, o João Anzanello Carrascoza, mas com a pessoa fictícia do narrador, a quem o escritor confere a palavra.

Complicado?

Acho que não… o recurso é antigo e com certeza o leitor já viajou por muitos outro livros nos quais os eus não são eus e sim  eles ,

Mas este Caderno de um ausente tem mais encantos. Ao longo da leitura, o leitor vai encontrando textos apagados, cujo apagamento deixa manchas brancas nas linhas do texto. Leitores mais velhos podem lembrar-se dos tempos da datilografia, quando se apagava com pincel e  um corretor branco os enganos e trechos a serem descartados. Se para tais leitores, esta ocorrência pode conferir à história ( e ao livro) um certo sentido de artesanato, numa obra impressa o procedimento ganha outros sentidos.

Quais ?

Vai saber … cada leitor é um leitor !

Talvez o apagamento de textos ao longo do livro possa articular-se com a ausência anunciada no título e mencionada e sugerida em diversas passagens da história. O leitor então sorri e dá-se conta de que o apagamento começa antes mesmo do início da narração. Na realidade, já começa na capa do livro. Invade logo depois a página da dedicatória e das epígrafes, pontilha o livro inteiro e se distende, alargado, nas páginas finais.

Ah … então pode ser isso …

Ou seja: um leitor mais afoito pode imaginar que está vendo no projeto gráfico do livro, o que  está lendo na história. E redobra o deslumbramento : tem em mãos um belíssimo livro, extremamente sofisticado, que honra o prêmio Jabuti com que foi contemplado.

Leitura imperdível !

 

Marisa Lajolo


[1] DISPONIBILIZADO EM 14.02.2016 NO FACEBOOK DE MARISA LAJOLO https://www.facebook.com/marisa.lajolo

Roger Mello


Vencedor do Prêmio Jabuti por oito vezes, na categoria literatura infantil

“Tive a felicidade imensa de receber oito vezes o Prêmio Jabuti! Um prêmio que sempre me instigou, desde criança. Foi um incentivo vigoroso e persistente como o próprio bicho jabuti que enche de nuances as histórias brasileiras. Viva o Prêmio Jabuti!”

Cristóvão Tezza


1º lugar na categoria Romance com o título “O Filho Eterno” (2008), Editora Record

“Fui finalista algumas vezes do prêmio Jabuti. Em 2004, fiquei em terceiro lugar com o romance “O fotógrafo”, e no ano passado levei o Jabuti de melhor romance com “O filho eterno”. É simplesmente impressionante a repercussão que esse prêmio tem, a partir do fato de que é o mais antigo e todo mundo conhece. O Jabuti é uma instituição bastante “popular”, o que é sempre surpreendente no mundo do livro brasileiro. Além do mais, ele repercute também na imprensa, o que multiplica a visibilidade da obra. Para mim, teve um efeito positivo, não só no Brasil mas também no exterior – o fato de ter ganho o Jabuti é um toque a mais a valorizar o livro e eventualmente abrir caminho para as traduções”.1º lugar na categoria Romance com o título “O Filho Eterno” (2008), Editora Record

Ignacio de Loyola Brandão


Melhor Livro do Ano de Ficção com o título ” O menino que vendia palavras” (2008). Editora Objetiva

“Ganhar um Jabuti como o Melhor Livro de Ficção de 2008, ainda mais com um infantil, é como pegar um tapete voador e flutuar suavemente, leve e solto, no céu da imaginação e fantasia. Ou seja, um prazer. “Melhor Livro do Ano de Ficção com o título ” O menino que vendia palavras” (2008). Editora Objetiva

Luiz Antonio de Assis Brasil


2º lugar na categoria Romance com o título “A Margem Imovél do Rio” (2004), L&PM Editores

“Ganhar o Jabuti, o mais antigo e prestigioso prêmio literário nacional, foi um enorme estímulo a um escritor que, no meio da carreira, decidiu tentar novas formas de escrita. O Jabuti é um aval e uma recomendação. Ele significa: “Ok, você está certo. Pode seguir em frente”. É possível que outros digam a mesma coisa, é possível que os familiares e amigos o repitam, mas quando esse juízo parte de uma entidade isenta e respeitável como a CBL, podemos acreditar. Sim, o Jabuti foi e é importante para mim, como o é para todos os indicados e vencedores. Ele faz parte da minha biografia, ele me justifica como escritor e como ser humano.”2º lugar na categoria Romance com o título “A Margem Imovél do Rio” (2004), L&PM Editores

Discurso – Cerimônia 57º Prêmio Jabuti – Marisa Lajolo


Boa noite! E hoje é noite de festa!

Festa para os vencedores do Prêmio Jabuti. E também para os finalistas e os mais de dois mil inscritos.

São quase cem artistas – mestres da palavra, mestres das artes do livro – os premiados de hoje. Mestres escolhidos por um júri de mestres, outros quase cem especialistas.

Que recebam todos o reconhecimento de todos nós!
O Jabuti também sela hoje sua marca de contemporaneidade: aos 57 anos, é capaz de renovar-se. De renovar-se profundamente.

O Jabuti renova-se na homenagem que presta a Maurício de Souza, artista maior de um gênero – os quadrinhos – por algum tempo considerado menor, o patinho feio das “belas letras”. O Jabuti também se renova ao premiar adaptações, gênero através do qual um imenso número de leitores – eu, com certeza e talvez vários dos aqui presentes – chegou às obras clássicas. O Jabuti renova-se, ainda, ao reconhecer um gênero moderníssimo e polêmico, o livro digital.

Outra inovação significativa do Jabuti ao longo deste ano foi levar a um horizonte mais largo o mundo dos livros e dos autores. Levou autores e livro
anteriormente premiados para encontros com leitores, reunidos em bibliotecas, escolas, livrarias, e eventos.

É por tudo isso que o Prêmio Jabuti se chama “jabuti”.
Nesta sua denominação, homenagem à cultura popular brasileira, magnificamente representada pelo bichinho cascudo.
Nas centenas de histórias que dele narram Sívio Romero, Câmara Cascudo e Monteiro Lobato, ele é sempre o vencedor.

O jabuti vence tudo e vence todos. Mas não porque seja o mais forte. Mas porque é o mais sábio. Ele, o jabuti – como o livro e o povo do livro – sobrevive sempre!

O Jabuti sabe e saberá superar o desconcerto de algumas condições contemporâneas. Pois, o que disse Drummmond de um certo José, podemos dizer do livro: “ você não morre! Você é duro, José!

Boa noite!