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Discurso Luiz Antonio Torelli – Presidente da CBL


Cerimônia 58º Prêmio Jabuti – 24 de novembro de 2016

Boa noite, senhoras e senhores!

Sejam muito bem-vindos à cerimônia de entrega do quinquagésimo oitavo Prêmio Jabuti.

É uma honra recebê-los em mais uma edição da mais prestigiada premiação do livro brasileiro.

O Prêmio Jabuti vem mais uma vez nos mostrar a força e os talentos da produção editorial brasileira, premiando nomes já consagrados, como também novos e promissores autores, editoras e profissionais do livro, que se destacaram entre as 2.400 obras inscritas em 27 categorias.

Nada seria possível sem o envolvimento de dezenas de competentes e dedicados profissionais do livro. Saúdo o Conselho de Curadores, coordenado pela professora doutora Marisa Lajolo, e o corpo de jurados, cuja missão é sempre árdua, dado o elevadíssimo nível das obras inscritas.

Agradeço aos vice-presidentes, diretores, executivos e colaboradores da CBL, que tanto se dedicam à causa do livro.

Mas principalmente, quero agradecer e parabenizar todos os editores, autores, ilustradores, tradutores, capistas e designers que trabalharam para produzir estes livros fantásticos e os inscreveram no Prêmio Jabuti.

Esta noite, contamos com a presença de uma ilustre escritora, a quem homenagearemos como Personalidade Literária do ano pelo conjunto de sua obra. Peço a todos muitos aplausos à nossa querida Lygia Fagundes Telles!

Lygia Fagundes Telles é uma das maiores e mais consagradas autoras do país, editada pela Companhia das Letras, igualmente uma das maiores e mais prestigiadas editoras brasileiras.

Lygia é membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Paulista de Letras e vencedora de diversos prêmios, incluindo 5  Jabutis, por suas obras: Verão no Aquário, As Meninas, A Disciplina do Amor, A Noite Escura e Mais Eu, e, Invenção e Memória.

Para nós da Câmara Brasileira do Livro, é uma honra recebê-la essa noite e homenageá-la por sua belíssima trajetória. Muito obrigado pela sua presença!

O quinquagésimo oitavo Prêmio Jabuti nos apresentou grandes obras publicadas, de novos e já consagrados autores e profissionais do livro, dos quatro cantos do Brasil. É maravilhoso ver a diversidade que o país nos proporciona e a oportunidade de poder valorizar essas obras por meio do Jabuti.

Com a grande diversidade de inscritos, o Jabuti reforça a sua missão de promover o livro, conferir visibilidade à produção editorial brasileira, identificar talentos e revelar novos escritores.

A qualidade de nossa produção, a criatividade de nossos escritores, o profissionalismo de nossas editoras e de todos que fazem parte desse universo, colocam o livro brasileiro no patamar dos melhores do mundo.

Para continuarmos a valorizar os finalistas e premiados, para além da celebração que estamos realizando hoje, criamos o selo Jabuti disponibilizado para destacar ainda mais as obras contempladas nos pontos de venda.

Mais uma vez inovamos, criamos para esta edição, com apoio da ANL, o concurso cultural Jabuti nas Livrarias, para todo o Brasil, com o intuito de dar visibilidade às obras vencedoras do Jabuti.

Vamos premiar a livraria que fizer a melhor exposição dos livros contemplados com o Jabuti. O responsável pela montagem vencedora participará com todas as despesas pagas da próxima Feira do Livro de Buenos Aires, incluindo visitas programadas às principais livrarias da capital argentina.

Também para essa edição, trazemos outra inovação. Além dos jurados e dos profissionais do livro que tradicionalmente elegem os livros de ano de Ficção e Não Ficção, contamos com a opinião do nosso público final: o leitor.

Por meio de uma parceria realizada com a Amazon.com.br, as obras finalistas das categorias Romance, Contos & Crônicas e Poesia concorreram a um prêmio adicional, decidido pela avaliação dos leitores. Essa noite, portanto, além de, claro, os melhores livros do ano de Ficção e Não Ficção, saberemos também quem foram os grandes vencedores na avaliação do leitor!

Durante 2016, o projeto “Jabuti Entre Autores e Leitores”, após 11 edições de sucesso em São Paulo, levou os premiados para bate-papos na Casa Brasil, espaço criado especialmente para os eventos culturais realizados durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro 2016.

O Jabuti esteve presente na FLIP, na Feira do Livro de Ribeirão Preto e no Fórum das Letras de Ouro Preto.

Com o objetivo de tornar o prêmio, suas obras e autores mais conhecidos pelo mundo, levamos o Jabuti para as feiras internacionais de Bolonha, Frankfurt e Guadalajara, com espaços destacados nos estandes do Brasil.

Queremos com estas ações, que o Jabuti transcenda esse momento da festa e estimule a leitura dos contemplados.

Certamente os prêmios entregues hoje trarão muito mais prestígio aos vencedores e abrirão ainda mais portas para suas obras conquistarem o leitor brasileiro e do mundo!

Parabéns a todos os vencedores! Uma boa festa!

Muito obrigado!

Discurso Marisa Lajolo – Curadora do 58º Prêmio Jabuti


Boa noite a todos !

Hoje, 24 de novembro, é noite de festa ! De muitas festas.

Uma delas celebra uma data antiga : o nascimento – há cento e cinquenta e cinco anos – de um dos maiores poetas que o Brasil já teve: o negro Cruz e Souza, que empresta seu nome ao Museu Histórico de Santa Catarina , enquanto  seus poemas encantam corações a norte-sul-leste e oeste de nosso país.

Outra festa de hoje é a celebração dos quase cem vencedores do Prêmio Jabuti. E no abraço com que os saudamos, entram também os finalistas do prêmio, parte significativa dos mais de dois mil inscritos neste ano .

O Prêmio Jabuti  – hoje quase sexagenário – vem se repaginando constantemente: em 2015  premiou adaptações e livros digitais. E este ano, além de premiar as livrarias que melhor promovam as obras premiadas – numa parceria com a Amazon – deu voz aos leitores, que votaram em seus livros preferidos de contos, poemas e romances . Ou seja, o Jabuti sela sua origem amazônica e  sai às ruas, buscando seus leitores, fortalecendo a tão essencial interação entre autores, obras e públicos, como ensina mestre Antonio Cândido

Assim, nesta cerimônia festiva de hoje, mais uma vez se celebra o bichinho cascudo que, nas centenas de histórias que o celebram,  contadas e recontadas por nossos escritores, ensina que a sabedoria sempre  vence a força e a violência.

Sempre, sempre, sempre.

E como  o livro é portal da sabedoria, encerro esta fala, com o convite de Vinícius de Moraes, à poesia e ao livro :

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia

E na perspectiva
da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura .

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo :
( um templo sem Deus)

Mas é grande e clara
Pertence a seu tempo
- Entrai, irmãos meus
!

Que tenhamos todos uma grande  noite !

DISCURSO NA CERIMÔNIA DE PREMIAÇÃO DO 58o. PREMIO JABUTI.  24. 11.2016  .MARISA LAJOLO

Câmara Brasileira do Livro anuncia Livros do Ano em cerimônia do 58º Prêmio Jabuti


Câmara Brasileira do Livro anuncia Livros do Ano em cerimônia do 58º Prêmio Jabuti

O evento contou com a premiação dos vencedores, anúncio do “Escolha do Leitor” e Livros do Ano de Ficção e Não Ficção, e homenagem à Lygia Fagundes Telles

A Câmara Brasileira do Livro (CBL) realizou nesta quinta-feira, 24 de novembro, a cerimônia do 58º Prêmio Jabuti, no Auditório Ibirapuera. O evento, que contou com a entrega das estatuetas do Jabuti para os vencedores, anunciou também os contemplados pelos Livro do Ano Ficção e Não Ficção, além do “Escolha do Leitor”.

O Livro do Ano Ficção foi para “A Resistência”, de Julián Fuks (Companhia das Letras). O Não Ficção foi compartilhado por duas obras, por conta de um empate: “Mário de Andrade: Eu sou Trezentos: Vida e Obra”, do autor Eduardo Jardim (Edições de Janeiro), e “Dicionário da História Social do Samba”, de Nei Lopes e Luiz Antonio Simas (Civilização Brasileira). Já o “Escolha do Leitor” – realizado em parceria com a Amazon.com.br, premiou o livro “Ainda Estou Aqui”, de Marcelo Rubens Paiva (Alfaguara), na categoria Romance; “Amora”, de Natalia Borges Polesso (Não Editora) em Contos & Crônicas; e “Vertigens”, de Wilson Alves Bezerra (Iluminuras) em Poesia.

Os primeiros colocados das 27 categorias receberam o troféu Jabuti e R$ 3,5 mil; também os vencedores dos segundos e terceiros lugares ganharam o troféu. Os vencedores do Livro do ano Ficção e Livro do Ano Não Ficção, definidos por votação por profissionais do mercado editorial, foram comtemplados com o prêmio de R$ 35 mil por categoria, além da estatueta dourada – o valor de R$ 35 mil para Livro de Ano Não Ficção foi dividido igualmente entre os dois vencedores. Os vencedores do “Escolha do Leitor” receberam um prêmio adicional, decidido pela avaliação dos leitores, pelo site www.amazon.com.br/premiojabuti.

Nesta edição, a escritora Lygia Fagundes Telles foi homenageada com o prêmio Personalidade Literária pelo conjunto de sua obra. Na ocasião, a escritora e atriz Bruna Lombardi fez uma leitura de fragmentos de seus livros, e a autora recebeu uma homenagem em vídeo, com depoimentos de grandes autores e profissionais ligados ao livro e à cultura: Ignácio de Loyola Brandão, Lúcia Telles, Nélida Pinõn, Ana Maria Martins, Danilo Miranda, Luís Antonio Torelli e Marisa Lajolo.

Os vencedores das 27 categorias foram escolhidos entre mais de 2.400 obras inscritas, por júris especialistas de cada categoria. O Júri foi indicado pelo Conselho Curador do Prêmio, composto por Marisa Lajolo, Antonio Carlos de Morais Sartini, Frederico Barbosa, Luís Carlos de Menezes e Pedro Almeida. Apenas no dia da cerimônia, o júri foi conhecido por todo o público. A relação de vencedores foi validada pelo Conselho Curador e pela Auditoria Ecovis Pemom, e está disponível em  www.premiojabuti.org.br.

Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende


quarenta dias

Quarenta Dias
Por Marisa Lajolo, curadora do Prêmio Jabuti
https://www.facebook.com/marisa.lajolo
Em 25/01/2014

Quarenta Dias
1º Lugar na categoria Romance no Ficção em 2015
Autora: Maria Valéria Rezende
Editora: Editora Objetiva

Lendo “Quarenta dias” (M. Valéria Rezende, Alfaguara, 2014) o leitor – sobretudo no feminino – pode escolher: identifica-se com Alice ou com Barbie? Ou com Lola?  Ou, quem sabe, com Norinha…?

Independente da escolha, não larga o livro…

Na história, uma voz feminina em primeira pessoa narra, em forma de diário manuscrito, uma insólita e belíssima experiência vivida por uma mulher de sessenta anos. Transplantada de seu cotidiano bem arrumadinho para uma outra vida que lhe é imposta, Alice descobre  sua própria força. E testemunha a solidariedade dos “de baixo”, que encontra em salas de espera de hospitais públicos, em becos que cortam favelas, em alojamentos de operários. Estes “de baixo” têm sempre histórias para contar E as contam. E contam bem.

Pela forte e ao mesmo tempo delicada voz de Alice, os leitores percorrem um Brasil de “brasileirinhos” e “ brasileirinhas “ que nem sempre chegam à literatura com a verossimilhança que M. Valéria Rezende sabe construir para cada um deles, ainda que quase todos habitem – cada um/a-  umas poucas linhas de seu romance.

A personagem narradora, professora aposentada entrelaça à história, de forma leve, o inevitável perfil letrado de sua vida anterior. Livros e autores se esgueiram em epígrafes e comentários. Mas não humilham o leitor que não os conhece. Ao contrário, convidam à leitura. Convivem, no corpo do livro – na realidade, desde sua capa-  com a reprodução de comandas  de padarias,  de folhetos que anunciam receitas milagrosas e luxuosos lançamentos imobiliários.

Tudo é escrita. Frente e verso da página. !

A história é suficientemente sofisticada para sugerir interpretações variadas. Há ecos bíblicos já no título “Quarenta dias” e o enredo encena radical repaginação da relação mãe / filha. Além de reler Lewis Carroll. Não faltará quem embarque na discussão. Pois é ótimo discutir bons livros, como este!

Mas o encanto não carece de nada disso.

Ao longo e ao cabo da leitura, creio que mesmo os mais intelectualizados leitores revivem o encanto primeiro da literatura, que faz viver vidas alheias na segurança da folha de papel, que dá vontade de sublinhar frases aqui e ali. Depois da leitura, fechado o livro, o leitor/a retorna diferente à vida cotidiana. Retorna talvez mais sábio/a, porque mais sensível à estupenda diversidade de seres humanos que, conosco, compartilham o planeta Terra… e que – sorte nossa, não é mesmo? – habitam “Quarenta dias”.

Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos de Evandro Affonso Ferreira


Os Piores Dias de Minha Vida

Os piores dias de minha vida…
Por Marisa Lajolo, curadora do Prêmio Jabuti
https://www.facebook.com/marisa.lajolo
Em 06/03/2015

Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos
3º Lugar na categoria Romance em 2015
Autor: Evandro Affonso Ferreira
Editora: Editora Record

“Os piores dias de minha vida… ”

Conversando com um grupo de jovens sobre o livro “ Os piores dias de minha vida foram todos” ( Evandro Affonso Ferreira, Ed. Record, 2014) uma garota surpreendeu os colegas ao dizer que “quando ouviu ( e depois leu)  o título do livro, achou que era a história de alguém que era feliz, porque os piores dias da vida já tinham passado …”.

Como se sabe  (e eu acredito), leitor tem sempre razão. mesmo quando vai na contra mão de outros leitores ! Esse era exatamente o caso, já que os colegas achavam que um livro com esse título, seria um nunca acabar de tristezas e infelicidades.

E aí ?

Aí, meus botões ficaram pensativos …  Voltei ao livro.

Na capa, belíssimo trabalho de Frede Tizzot, artista paranaense, que trabalha um rosto grego , a partir de um quadro que representa Antígona ( suponho –suposição em débito com  dona Internet … – quadro de Frederic Leighton ). No trabalho de Tizzot, o rosto da personagem da tragédia grega é recortado por linhas verticais, que dão ao leitor a impressão de uma imagem fatiada. Linda capa !

Linda e, acho, bastante articulada à história que Evandro conta pela voz de uma mulher.

Doente terminal, à espera da morte, sozinha num quarto, a narradora anônima faz de Antígona sua interlocutora. Antígona, personagem do teatrólogo grego Sófocles, é uma figura trágica, que paga com a vida a fidelidade a seus valores. E o que teria a narradora do livro de Evandro a dizer a Antígona?

Num fluxo ininterrupto de fala, sucedem-se reflexões sobre sua morte próxima  “ … caminho lentamente para o ocaso, submergindo-me nas areias movediças do desespero do desencanto “   e  episódios de sua vida, desordenadamente evocados : “ Três africanos aqui na frente estão falando possivelmente em quicongo, ou lugbara, não sei. Cena felliniana: ator amador vestido a caráter dublando Maria Callas “

Em parágrafos longos, o monólogo da narradora arrasta o leitor para o cotidiano de um doente que sabe que vai morrer em breve. Sabe da morte próxima, mas também sabe que a angústia da morte talvez se alivie pela imaginação. Alívio que não impede, no entanto, que a certeza da morte se expresse por metáforas fortes e brutas:   “(…) a morte se torna mais íntima – são perceptíveis suas unhas pontiagudas por todas as frestas. Jeito é me render aos surtos de fantasia”.

A fala da narradora – que o leitor escuta e o vai envolvendo, mesmo que aparentemente não seja dirigida a ele, mas sim a Antígona – a identifica como uma mulher de vida intelectual intensa, intimidade com grandes nomes e eventos da arte. Ao longo de sua sofisticada narração, a intimidade com a arte convive com ( e serve para expressar) a sensação de que, na hora da morte, ela se sente/ sabe “ refém de entidades demoníacas, dogmáticas, obstinadamente coerentes na prática de assanhar desgraças, objetivas em seus empreendimentos nefastos, suas maldades peremptórias”

Tais entidades, evocadas reiteradamente na história, em sua perversidade extrema, criam um curioso efeito de sentido ao se avizinharem – na narrativa do livro- de figuras do dia-a-dia paulistano.

De um lado, Antígona, Tântalo, as Parcas e as Erínias são evocações que podem deixar perdidos alguns leitores. Eu, por exemplo, às vezes.  De outro lado, mendigos maltrapilhos, executivos engravatados, gente revirando lixeiras, faixas que anunciam as treze preces poderosas trazem o leitor de volta à são Paulo da  “ rua São Bento , do Cemitério da Consolação, da Avenida Paulista, e do Viaduto do Chá.”

Ao repassar, como numa série de clips desconexos, episódios de sua vida ( memória fatiada como o rosto de Antígona da capa ?), um escritor, amigo já falecido, é figura constante. Esta presença traz para o livro de Evandro uma das marcas mais constantes da literatura brasileira mais contemporânea: o mundo das letras, o mundo dos livros, o mundo da literatura. Este mundo se expressa por um escritor que “munido de anseio inesgotável pela hipnose auditiva do texto, mais que de interesse pela recriação profunda e realista das psicologias, acreditava no poder sugestivo dos sons. Fazia jus ao significado da palavra texto: sabia tecer palavras”.

Esta personagem pode monitorar um pouco a leitura dos leitores de Evandro; na sucessão de páginas, encontramos ao longo do livro, passagens em que a história se faz música e som, como a que conta que deuses da debacle são sorrateiros chegam à sorrelfa “.

Sibilantes maravilhosas, dizem meus botões…

Mas as lições deste escritor-personagem prosseguem avaliando a própria obra, ele comenta com a narradora que as “personagens dos meus livros de modo geral têm final feliz: eles morrem.

É por aqui que retorno àquela jovem leitora, que – a partir do título do livro- desenvolveu expectativas de uma história de final feliz.

A abertura do livro já evoca Antígona: “Venha, luminosa Antígona, seja minha carpideira: também estou sendo enterrada viva“, pede a narradora.  O pedido combina bem com a epígrafe do livro, do Padre Vieira: “Saber morrer é a maior façanha”. Morte e enterros, no início da história, dão razão ao escritor amigo da narradora, que  “nunca procurou conquistar o favor dos leitores”

Será mesmo? Ou sua técnica de conquista é outra? Quem sabe ele aposta na sedução do tema da morte, interdito, sobretudo quando materializado em cenas, sensações e emoções como as que percorrem este romance de Evandro Affonso Ferreira…?

Que opinem os leitores que, como se disse lá em cima, têm sempre razão…

Olhos d´água de Conceição Evaristo


Olhos d´Agua

Olhos d´água
Por Marisa Lajolo, curadora do Prêmio Jabuti
https://www.facebook.com/marisa.lajolo
Em 29/05/2016

Olhos d´água
3º Lugar na categoria Contos e Crônicas
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas Editora

“Olhos d’água” é o livro de contos de Conceição Evaristo ( ed. Pallas/ Biblioteca Nacional ), que ganhou um prêmio Jabuti ( contos) no ano passado . É também o título da primeira historia, historia de uma mulher às voltas com a imagem que guarda de sua mãe. Mas …  olhos d’ água é também como as vezes ficam os olhos dos leitores das quinze 15 belíssimas historias que a escritora mineira, reúne neste livro.

Leitores ganham olhos d’água e alma leve pela beleza das historias que – apesar do que narram – tecem a esperança

Personagens principais quase sempre femininas. Velhas, moças, crianças. Negras, quase todas e quase todos. Ex-prostitutas, domésticas, pedreiros, traficantes. E outros e outras.  Pobres todas e todos.

A perspectiva em que as historias são narradas faz toda a diferença no coração e na cabeça dos leitores, irremediavelmente envolvidos pelo que leem . Em cada conto, o enredo começa como que de repente: constrói-se aos poucos, descolando-se de pequenas nadas, de gestos cotidianos, de sensações imprecisas. “Coisas nenhumas” que nas mãos da escritora e na voz da narradora fazem toda a diferença. E o leitor não larga a leitura, embora as vezes possa alongar o olhar do livro, para suas próprias lembranças .

Mas com certeza volta ao livro.

Por mais que dor e sofrimento pontuem as historias, há também em todas elas a chama de uma vontade forte, de uma consciência que desperta, do aprendizado dos extremos da vida e da morte. Raiva. Muita. Lições que se aprendem – leitores e personagens – às vezes no choro do bebê recém nascido, outras vezes na visão do cadáver que o camburão recolhe numa manhã carioca.

Para registrar historias como as dos homens e mulheres que povoam seu belo e premiado livro, Conceição Evaristo compõe uma voz narradora forte e envolvente. Ainda que desataviada. Direta.  Às vezes enriquecida por um ou outro vocábulo africano (creio), alguns Ys e Ks, ao lado dos nomes de muitas personagens conferem ao livro a marca da mestiçagem de nossa cultura.

A solidariedade da voz narradora com o que narra  expressa-se tanto na atenção aos detalhes do cotidiano como na absoluta recusa ao sentimentalismo. A mais absoluta recusa que se possa imaginar…  O leitor que se envolva. E como se envolve ! Na raiva e na esperança. Esta sábia opção de Conceição Evaristo  por uma dicção narrativa enxuta, confere extraordinária  beleza ao livro e constrói sua identidade. Em várias das histórias  imaginação e fantasia temperam um cotidiano de carências e ausências. Nuvens, algodão doce, uma festa de aniversário.

É a vida e a esperança que nascem, esgueirando-se – na voz que narra a história –   entre tiroteios onde não faltam balas perdidas e mortes acidentais. Raiva.  Pois, como sabe Natalina, são “frágeis os limites entre a vida e a morte”. E são mesmo, não é? Mas também – como se aprende com a neta Querença, há que não esquecer os sonhos.

A menina , que encerra a história ” haveria de sempre umedecer seus sonhos para que eles florescessem e se cumprissem vivos e reais . Era preciso reinventar a vida”  .

Aqui e agora.

E não será esta reinvenção da vida que este belo livro de Conceição Evaristo engendra e deixa nos leitores vontade de juntar-se a ela na tarefa ?

Acho que sim.

Caderno de um Ausente


CADERNO DE UM AUSENTE[1]

Caderno de um ausente ( João Anzanello Carrascoza, Cosac Naif, 2014) é um livro primoroso.  Dando nova estrutura à antiga formatação do  romance epistolar, o volume pequeno e discreto enreda o leitor como, na Europa do século XVIII, Richardson e Laclos arrebataram leitores. Um ( o inglês) com as maltraçadas de Pamella e outro ( o francês)  com as do Visconde de Valmont e de outras figuras da aristocracia francesa.

Mas Carrascoza inova.

Muito e bem.

As pouco mais de curtas cem páginas de  seu livro podem ser lidas como uma única carta de um pai para sua filha recém nascida Bia. Carta escrita aos pedaços, que cobre pouco mais de um ano de vida da menina e entrelaça, magistralmente, presente e passado. Do pai e da filha.

E em alguns momentos se debruça sobre o futuro.

Remetente da carta, o pai é o narrador do livro.

É pela sua voz – por vezes embargada de emoção, outras vezes travada pelo cotidiano da vida de um professor universitário – que o leitor vai mergulhando na intimidade da experiência de uma família, de um segundo casamento, de um filho do primeiro, de uma sogra que é avó amorosa, de uma gravidez de risco. Sempre no limite do mínimo, do discreto, do fragmentário. Sempre imergindo em profunda emoção.  Que, claro, contagia o leitor.

À medida que progride na leitura, o leitor vai criando e alterando as expectativas do sentido da ausência anunciada no título. Quem é o ausente ?

Mas a capa tem mais segredos. Logo depois dela, na primeira linha do romance, a presença de um vocativo – Filha, acabas de nascer –sugere uma carta. A invocação da destinatária, Beatriz, Bia, em segunda pessoa, perpassa todo o texto. No entanto, o título do livro, na capa, promete ao leitor um caderno: Caderno de um ausente .

Cabe ao leitor decidir. E qualquer que seja sua decisão, ele (leitor) –mais do que testemunha- compartilha, na leitura, a exposição de um eu, uma primeira pessoa no masculino. A narração em primeira pessoa, independente de ser voz masculina ou feminina, torna quase irresistível a identificação de quem lê com quem escreve. Claro que não com a pessoa física do escritor, o João Anzanello Carrascoza, mas com a pessoa fictícia do narrador, a quem o escritor confere a palavra.

Complicado?

Acho que não… o recurso é antigo e com certeza o leitor já viajou por muitos outro livros nos quais os eus não são eus e sim  eles ,

Mas este Caderno de um ausente tem mais encantos. Ao longo da leitura, o leitor vai encontrando textos apagados, cujo apagamento deixa manchas brancas nas linhas do texto. Leitores mais velhos podem lembrar-se dos tempos da datilografia, quando se apagava com pincel e  um corretor branco os enganos e trechos a serem descartados. Se para tais leitores, esta ocorrência pode conferir à história ( e ao livro) um certo sentido de artesanato, numa obra impressa o procedimento ganha outros sentidos.

Quais ?

Vai saber … cada leitor é um leitor !

Talvez o apagamento de textos ao longo do livro possa articular-se com a ausência anunciada no título e mencionada e sugerida em diversas passagens da história. O leitor então sorri e dá-se conta de que o apagamento começa antes mesmo do início da narração. Na realidade, já começa na capa do livro. Invade logo depois a página da dedicatória e das epígrafes, pontilha o livro inteiro e se distende, alargado, nas páginas finais.

Ah … então pode ser isso …

Ou seja: um leitor mais afoito pode imaginar que está vendo no projeto gráfico do livro, o que  está lendo na história. E redobra o deslumbramento : tem em mãos um belíssimo livro, extremamente sofisticado, que honra o prêmio Jabuti com que foi contemplado.

Leitura imperdível !

 

Marisa Lajolo


[1] DISPONIBILIZADO EM 14.02.2016 NO FACEBOOK DE MARISA LAJOLO https://www.facebook.com/marisa.lajolo

Curiosidade: Prêmio Jabuti – História e Nome


A história do Prêmio Jabuti começa por volta de 1958, em um período repleto de desafios para o mercado editorial, com recursos escassos e baixa articulação do segmento. Apesar das adversidades, não faltava entusiasmo aos dirigentes da Câmara Brasileira do Livro naquela época. A primeira premiação ocorreu no final do ano de 1959, em solenidade simples e despretensiosa, realizada no auditório da antiga sede da CBL, na avenida Ipiranga. Foram laureados autores como Jorge Amado, na categoria Romance, pela obra “Gabriela, Cravo e Canela”. A Saraiva ganhou o prêmio de Editor do Ano.

Mas por que um jabuti para nomear um prêmio do livro? A resposta tem explicação no ambiente cultural e político da época, influenciado, sobretudo, pelo modernismo e nacionalismo, pela valorização da cultura popular brasileira, nas raízes indígenas e africanas, nas suas figuras míticas, símbolos seculares carregados de sabedoria e experiência de vida e legados de uma geração à outra.

E foi Monteiro Lobato, provavelmente, o mais prolífico na recriação literária das histórias desses personagens meio enigmáticos, meio reveladores e sempre sedutores do folclore nacional. Um desses personagens da literatura infantil de Lobato é, como se sabe, o jabuti. O pequeno quelônio, já familiar no imaginário das culturas indígenas tupi, ganhou vida e personalidade nas fabulações do autor das “Reinações de Narizinho”, como uma tartaruga vagarosa, mas obstinada e esperta, cheia de tenacidade para vencer obstáculos, para enganar concorrentes mais bem-dotados e chegar na frente ao fim da jornada. Com essas credenciais, ganhou também a simpatia e a preferência dos dirigentes da CBL. Eles o elegeram para inspirar e patrocinar um prêmio para homenagear e promover o livro.

Como concorrer ao Prêmio Jabuti ?


Para concorrer, a obra deverá ser inédita e ter sido escrita por autor brasileiro e publicada em língua portuguesa no Brasil, em primeira edição, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2015.

A obra vencedora em primeiro lugar de cada categoria receberá, além do Troféu Jabuti, um prêmio no valor de R$ 3.500,00. O Prêmio Jabuti também é concedido para o Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não Ficção, cujos vencedores recebem, cada um, R$ 35.000,00.

As inscrições vão até 15 de julho e podem ser feitas tanto pelo autor, como pela editora da obra, no site www.premiojabuti.org.br, onde está disposto o regulamento completo da premiação.

Categorias participantes

  • Adaptação
  • Arquitetura, Urbanismo, Artes e Fotografia
  • Biografia
  • Capa
  • Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática
  • Ciências da Saúde
  • Ciências Humanas
  • Comunicação
  • Contos e Crônicas
  • Didático e Paradidático
  • Direito
  • Economia, Administração, Negócios, Turismo, Hotelaria e Lazer
  • Educação e Pedagogia
  • Engenharias, Tecnologias e Informática
  • Gastronomia
  • Ilustração
  • Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil
  • Infantil
  • Infantil Digital
  • Juvenil
  • Poesia
  • Projeto Gráfico
  • Psicologia, Psicanálise e Comportamento
  • Reportagem e Documentário
  • Romance
  • Teoria/ Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas
  • Tradução